A Liturgia é anúncio da Salvação

Subject:A Liturgia é anúncio da Salvação
Date:Fri, 25 Dec 2009 11:30:56 -0000
"A Liturgia é anúncio da Salvação"
1. A Igreja tem, como missão prioritária, anunciar a salvação
definitivamente realizada em Jesus Cristo. Fá-lo de muitos modos, mas o mais
eficaz é o testemunho da vida, a fé traduzida em experiência de salvação. É
a densidade do testemunho que dá autenticidade à palavra. As expressões da
fé vivida que mais tocam os corações são a sua celebração pela comunidade
crente e o amor fraterno. É por isso que a Liturgia é, na sua verdade mais
profunda, anúncio da salvação e meio para a missão evangelizadora da Igreja.


Na Liturgia, de modo particular na celebração da Eucaristia, a comunidade
cristã escuta a Palavra do Senhor com o coração aberto e comovido, acolhe o
dom de Jesus Cristo que se entrega de novo à Sua Igreja, expressão do
infinito amor de Deus por nós, une-se e identifica-se com Cristo a ponto de
se entregar pela salvação de todo o género humano. Na Liturgia, a Igreja
vive a salvação, identifica-se com Cristo, deseja renovar-se com a força do
seu amor e participa já do júbilo da Pátria celeste. A celebração da
Eucaristia é o momento da verdade da Igreja, que lhe dá autoridade para
anunciar a salvação. A partir dela, os crentes são enviados, sempre de novo,
para o meio do mundo, para anunciarem com a vida e com a palavra o dom da
vida nova. A força anunciadora dessa vida e dessa palavra, é a da Eucaristia
que celebraram. Toda a evangelização parte da Eucaristia e converge para a
Eucaristia.

Estamos a celebrar o Natal. A Liturgia desta noite tem de ser anúncio de
Jesus Cristo, a expressão do amor de Deus por nós que Ele encarnou, isto é,
humanizou, exprimiu na nossa realidade humana. O Natal é uma festa cristã
enriquecida culturalmente de forma muito bela, exprimindo valores e anseios
fundamentais da família humana: a harmonia, a paz, o calor da convivência, a
partilha de dons, a descoberta da dimensão festiva da vida. Mas só a
densidade da celebração litúrgica tem a força transformadora de um anúncio,
se nela acolhermos de novo o Filho de Deus feito homem como manifestação do
amor de Deus por nós, se nos abrirmos mais radicalmente ao dom da salvação.

2. Não é por acaso que os três textos da Sagrada Escritura que, nesta
celebração, nos foram proclamados para os escutarmos como a Palavra amorosa
que Deus nos diz esta noite, são três textos de anúncio desse momento
decisivo da humanidade que foi o nascimento de Jesus. O primeiro anúncio é
feito por um mensageiro de Deus, um Anjo: "Anuncio-vos uma grande alegria
para todo o povo: Nasceu-vos hoje, na Cidade de David, um Salvador que é
Cristo Senhor" (Lc. 2,11). O nascimento de Jesus é anunciado como o dom da
salvação, acto decisivo de Deus para resgatar a humanidade. Já tinha sido
assim que outro mensageiro divino o tinha anunciado a Maria: "Conceberás e
darás à luz um Filho e dar-lhe-ás o nome de Jesus. Ele será grande e
chamar-lhe-ão Filho do Altíssimo" (Lc. 1,31-32). Neste anúncio é claro que a
salvação é obra amorosa de Deus, só Deus nos pode salvar. A alegria
anunciada é a alegria da salvação.

O segundo anúncio é feito pelo Profeta Isaías, a um Povo que esperava a
salvação como concretização última da fidelidade do Deus da Aliança. "Um
Menino nasceu para nós, um Filho nos foi dado. Tem o poder sobre os ombros e
será chamado conselheiro admirável, Deus forte, Pai eterno, Príncipe da Paz"
(Is. 9,5-6). Para Isaías é claro que Deus estará presente neste Menino, que
terá a realeza de Deus e a salvação anunciada consistirá numa paz duradoira
e no triunfo da justiça.

O terceiro anúncio acontece já no seio da Igreja nascente, na realidade da
salvação vivida e procurada por aqueles que se uniram a Jesus Cristo. A
salvação é agora experiência nova da vida em Cristo, participação da
novidade pascal da ressurreição, processo a realizar-se com a força do
Espírito e que permite esperar poder um dia participar no triunfo final de
Jesus Cristo. Este anúncio é expresso por São Paulo na sua Carta a Tito:
"Manifestou-se a graça de Deus, fonte de salvação para todos os homens"
(Tit. 2,11).

3. Esta celebração, pela densidade da sua fé, tem de ser anúncio, antes de
mais para nós que aqui estamos reunidos com o Senhor e em seu nome. É a
partir de nós, através do nosso testemunho, que será inevitável e
espontâneo, à nossa sociedade, aos nossos irmãos e irmãs que celebram o
Natal sem lhes captar a mensagem, a densidade da alegria. Que aqueles três
anúncios da Palavra de Deus inspirem o nosso coração para acolher, de novo,
o anúncio da salvação e orientem o nosso testemunho às pessoas que nos
rodeiam. Sintetizemos o conteúdo dessa mensagem:

* Antes de mais, Jesus, o Menino que nasceu em Belém, é o Filho de Deus. Ele
é chamado Filho do Deus Altíssimo, tem todo o poder sobre os seus ombros,
que se manifestará plenamente depois da ressurreição. Ele tem a realeza do
Messias esperado: os cristãos aprenderam a chamar-lhe Senhor. Contemplar o
presépio sem acreditar na divindade daquele Menino é não permitir que o
nosso olhar penetre na profundidade do mistério.

* Ele é o Salvador, porque é Deus, tem o poder de recriar. Só Deus nos pode
salvar. Porque é homem, sabe como este último desafio de Deus se pode
concretizar na nossa realidade humana. Ele sabe que o segredo do homem é o
seu coração, e que se aceitar de Deus um coração novo, toda a sua vida
mudará, porque será transformada pelo amor. Maria, a Mãe, a mulher de
coração imaculado, diz-nos como isso é possível e onde nos levará.

* Apontam-se, depois, os primeiros frutos da salvação nos corações
renovados: a alegria, a paz, a justiça. O mundo actual perdeu o sentido da
verdadeira alegria, e vai-se afastando dela. Procura-a por caminhos
frenéticos de excitação, na busca de prazeres, de interesses, de fruição dos
bens materiais, tudo isto em ritmos alucinantes, que provocam a solidão e,
quase sempre, a tristeza. A alegria é experiência simples e profunda, brota
dos corações puros e generosos.

A encarnação do Verbo de Deus ensina-nos que só o amor generoso, a
experiência da generosidade, do dom e da partilha, a contemplação da beleza
dos outros homens, meus irmãos, são caminhos da verdadeira paz. Só o Natal
nos faz perceber que a justiça é a concretização da verdade profunda do
homem, chamado a viver em comunhão com os outros homens e que só homens
justos podem ser obreiros da justiça.

4. Acolhamos a mensagem desta celebração, empenhando-nos nela e faremos,
talvez, a experiência de uma alegria, que sendo humana, não se reduz a
nenhuma realidade deste mundo. Talvez percebamos de novo o que queremos
dizer uns aos outros quando nos saudamos, desejando "Bom Natal", "Santo
Natal".


D. José Policarpo, Cardeal-Patriarca





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